Ver todos os posts
Tempo de leitura:
4
minutos

Saúde mental e mercado de trabalho caminham juntos e as empresas precisam compreender essa relação

Por
Camille Holmer
Camille Holmer
Saúde mental e mercado de trabalho caminham juntos e as empresas precisam compreender essa relação

Saúde mental e mercado de trabalho devem fazer parte da mesma conversa

Durante muito tempo, saúde mental e trabalho foram tratados como assuntos que pertenciam a espaços diferentes, como se aquilo que uma pessoa sentia pudesse permanecer completamente separado daquilo que ela vivenciava durante sua jornada profissional. A realidade atual mostra uma relação muito mais complexa e torna cada vez mais difícil falar sobre produtividade, engajamento, liderança, retenção ou performance sem considerar também a saúde emocional das pessoas.

O trabalho ocupa uma parcela significativa da vida adulta, envolve relações, responsabilidades, expectativas, desafios e uma constante necessidade de adaptação. Ao mesmo tempo, as empresas vivem um cenário marcado por mudanças rápidas, transformação tecnológica, busca por eficiência, pressão por resultados e necessidade de fazer mais e melhor, o que torna fundamental encontrar equilíbrio entre aquilo que o negócio precisa entregar e as condições oferecidas às pessoas que tornam essas entregas possíveis.

Muitas pesquisas nos ajudam a entender essa realidade, como dados divulgados pelo Ministério da Previdência Social mostram que, em 2025, foram concedidos 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais, um crescimento de 15,66% em comparação com 2024, quando foram registrados 472.328 benefícios. É importante compreender que esses números abrangem transtornos mentais e comportamentais de forma geral e não significam que todos os casos tenham sido provocados pelo trabalho, ainda assim, o crescimento ajuda a revelar a dimensão do desafio de saúde mental que também chega diariamente às organizações.

São mais de meio milhão de afastamentos em apenas um ano, um número que precisa ser observado para além da estatística, porque cada registro representa uma pessoa que, em determinado momento, precisou interromper suas atividades por questões relacionadas à saúde mental.

Quando a busca por performance encontra o lado humano do trabalho

Produtividade e lucratividade continuam no centro das preocupações empresariais e isso faz parte da própria dinâmica dos negócios. Uma pesquisa da Robert Half realizada com 300 profissionais envolvidos em processos de recrutamento mostrou que produtividade e lucratividade aparecem como preocupação para 52% dos entrevistados, enquanto retenção de talentos aparece para 46% e bem-estar, incluindo saúde mental e qualidade de vida, já ocupa a quarta posição, citado por 44%.

Esses dados ajudam a mostrar uma mudança importante na gestão. Performance e bem-estar já não precisam ocupar lados opostos da estratégia, porque resultados sustentáveis dependem da capacidade das pessoas de permanecerem engajadas, preparadas e saudáveis para realizar um bom trabalho ao longo do tempo.

Uma equipe pode conviver com períodos mais intensos, desafios maiores e metas ambiciosas, desde que encontre clareza, organização, recursos adequados, relações de confiança e condições para compreender o que precisa ser feito. Quando a urgência se transforma em rotina, as prioridades deixam de estar claras e a sobrecarga passa a ser interpretada como sinônimo de comprometimento, a conta pode aparecer na qualidade das entregas, nos erros, no retrabalho, no clima, no turnover e também na saúde das pessoas.

A 8ª edição da pesquisa Inteligência Emocional e Saúde Mental no Ambiente de Trabalho, realizada pela The School of Life Brasil em parceria com a Robert Half, reforça essa percepção ao mostrar que somente 44% dos líderes e 49% dos liderados consideram os prazos frequentemente ou sempre realistas, enquanto apenas cerca de metade dos profissionais afirma conseguir realizar suas entregas sem comprometer a saúde física ou emocional.

O desafio das empresas, portanto, está em construir uma performance que possa ser sustentada, reconhecendo que resultados vêm através de pessoas e, principalmente, de pessoas que encontram condições para trabalhar com saúde.

Saúde mental no trabalho também passa pela organização do trabalho

Quando falamos sobre saúde mental nas empresas, é importante compreender que à empresa cabe olhar para aquilo que está sob sua responsabilidade, garantindo que o ambiente, as relações e a organização do trabalho não se tornem fatores de agravo ou prejuízo à saúde. Isso significa avaliar as condições de trabalho, identificar riscos, preparar lideranças e construir práticas que favoreçam relações mais saudáveis, respeitosas e seguras para as pessoas. 

A forma como as demandas são distribuídas, a clareza sobre funções e responsabilidades, a existência de recursos e treinamento adequados, a maneira como as pessoas recebem feedback, a qualidade das relações, o suporte disponível e a possibilidade de participar e expressar dificuldades influenciam a experiência de trabalho.

É justamente por isso que os riscos psicossociais relacionados ao trabalho ganharam ainda mais relevância nas discussões empresariais. A NR-1 reforça a responsabilidade das empresas de identificar e gerenciar os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho, ampliando o olhar para aspectos da rotina profissional que podem impactar a saúde dos trabalhadores. Isso significa observar de forma estruturada como o trabalho está organizado, como as relações acontecem e quais situações presentes no ambiente profissional podem representar riscos, para então definir ações de prevenção e acompanhamento adequadas à realidade da organização. 

Essa mudança reforça uma compreensão que precisa estar presente na gestão de pessoas, já que cuidar da saúde mental dentro das organizações também envolve conhecer como o trabalho acontece e identificar fatores que podem contribuir para o adoecimento relacionado à atividade profissional.

Segurança psicológica também faz parte de um ambiente saudável

Um ambiente de trabalho saudável não é aquele em que dificuldades deixam de existir, cobranças desaparecem ou resultados perdem importância. É aquele em que as pessoas sabem o que precisam fazer, compreendem suas responsabilidades, recebem orientação e feedback e encontram segurança para participar das relações profissionais.

Isso inclui poder fazer uma pergunta quando algo não está claro, comunicar uma dificuldade, admitir um erro, discordar com respeito ou sugerir uma ideia, compreendendo que um ambiente saudável não significa ausência de pressão, cobrança ou responsabilidade pelos resultados. O que muda é a forma como essas cobranças acontecem, com clareza, respeito, diálogo e condições para que as pessoas entendam o que é esperado delas e tenham segurança para se posicionar diante das dificuldades. 

É nesse contexto que a segurança psicológica ganha relevância, porque relações de confiança facilitam a comunicação e permitem que situações importantes cheguem ao conhecimento das lideranças antes de se tornarem problemas maiores.

A pesquisa da The School of Life Brasil e Robert Half mostra que somente 27% dos líderes consideram suas organizações bem ou totalmente preparadas para atender às exigências relacionadas à NR-1, um dado que reforça a urgência de as empresas se organizarem para esse novo cenário. Essa preparação vai além de atender às exigências legais e evitar possíveis consequências decorrentes da falta de adequação, já que também representa uma oportunidade de rever práticas, fortalecer relações e construir ambientes de trabalho mais saudáveis. Estudos sobre o tema vêm demonstrando que felicidade e bem-estar no trabalho estão associados a melhores níveis de produtividade e desempenho, o que reforça uma visão cada vez mais necessária para os negócios. Cuidar do ambiente de trabalho e dos fatores que estão sob responsabilidade da empresa é, portanto, uma forma de proteger as pessoas e, ao mesmo tempo, criar melhores condições para que elas possam entregar bons resultados. 

Criar segurança psicológica não significa retirar responsabilidades, cobranças ou expectativas de desempenho, significa construir um ambiente em que elas sejam acompanhadas por clareza, respeito, diálogo e confiança.

Lideranças preparadas fazem diferença nessa construção

Grande parte da experiência de um profissional dentro de uma empresa passa pela relação estabelecida com sua liderança, já que é o líder quem frequentemente comunica prioridades, distribui demandas, acompanha entregas, oferece feedback, reconhece resultados e percebe mudanças no comportamento da equipe.

Isso coloca a preparação das lideranças em um lugar importante dentro das estratégias de saúde mental, sem transformar gestores em psicólogos ou atribuir a eles a responsabilidade de diagnosticar questões emocionais.

Um líder preparado consegue conduzir conversas difíceis com mais respeito, organizar prioridades com clareza, oferecer feedback de forma construtiva, perceber sinais de atenção e conhecer os caminhos disponíveis dentro da organização para que uma pessoa encontre o suporte adequado quando necessário.

Essa preparação também contribui para que o próprio líder compreenda seus limites, afinal, quem ocupa posições de gestão também convive com pressões, responsabilidades, conflitos e expectativas e precisa encontrar apoio para desempenhar seu papel de maneira saudável.

Saúde mental precisa fazer parte da estratégia de gestão de pessoas

Diante de números tão expressivos de afastamentos e de uma transformação profunda na relação das pessoas com o trabalho, saúde mental deixou definitivamente de ser um assunto que pode permanecer distante das discussões sobre mercado de trabalho.

O RH tem um papel essencial nessa construção ao ouvir as pessoas, compreender o cenário da empresa, analisar indicadores, identificar necessidades, estruturar ações e apoiar as lideranças. Da mesma forma, líderes precisam estar preparados para construir relações mais saudáveis e conduzir equipes com clareza, responsabilidade e respeito, compreendendo que a maneira como o trabalho é organizado e as relações são conduzidas também influencia a experiência das pessoas.

Na Priorize Gestão, acreditamos que colocar as pessoas no centro não significa diminuir a importância dos resultados, significa compreender que são elas que tornam cada resultado possível.

Por isso, apoiamos RHs e lideranças na construção de ambientes mais saudáveis por meio de consultoria, treinamentos e palestras personalizados, sempre considerando a cultura, o momento e as necessidades reais de cada organização. Nosso trabalho busca transformar conhecimento em práticas aplicáveis, preparar líderes para os desafios atuais da gestão de pessoas e apoiar o RH na construção de estratégias que fortaleçam as relações, a segurança psicológica, a saúde e o desenvolvimento das equipes.

O RH da sua empresa já tem um plano estratégico para a implantação da NR-1 que, além de atender às exigências, contribua para proteger a organização, fortalecer o ambiente de trabalho e melhorar o engajamento e a retenção dos colaboradores?

Priorizar pessoas é cuidar da saúde da organização, fortalecer o presente e criar condições para resultados mais sustentáveis no futuro.

Camille Holmer

Camille Holmer

Camille Holmer é especialista em RH de varejo e serviços, conselheira empresarial, diretora executiva, consultora de RH, palestrante, e fundadora da Priorize - Gestão Estratégica de Pessoas.

Conteúdos relacionados